A história
A canção começa pelo que as pessoas dizem.
"Muitos dizem que ele foi um homem, alguém que alivia a dor." É uma frase educada. É o que se fala de Deus quando se fala de longe. E não é mentira. É só pouco.
O verso seguinte muda tudo: "mas eu o conheço de perto". Não é discordância, é outra categoria. Uma coisa é ouvir falar de alguém. Outra é ter estado com Ele. E o que revelou não foi um argumento. Foi o calvário.
Daí nasce o refrão, que é a confissão de quem passou a vida ouvindo. São mais de trinta anos de canções, pregações e definições. Tempo suficiente para decorar todas as respostas, e para descobrir que nenhuma alcança.
Repare no que a letra recusa. Curandeiro. Provedor. Nenhuma das duas coisas é falsa, mas as duas tratam Deus pelo que Ele resolve. A canção não está atrás do que Ele faz. Está atrás de quem Ele é.
E então ela tenta dizer. Mais que o céu. Mais profundo que o mar. Além do ar que se respira. Mais que a luz, mais que o próprio fôlego, mais do que se consegue imaginar. Cada comparação é maior que a anterior e nenhuma fecha a conta. A música inteira é uma medição que não termina.
Por isso o final não é uma conclusão. É uma frase em hebraico:
Ehyeh Asher Ehyeh.
É a resposta que Deus dá a Moisés no deserto, quando Moisés pergunta que nome dizer ao povo. Está em Êxodo, capítulo 3. É uma página que judeus, católicos e evangélicos leem igual, escrita muito antes de existir qualquer denominação. Traduz-se por "Eu sou o que sou", e também por "Eu serei o que serei".
Perguntaram o nome d'Ele. Ele respondeu com a única coisa que não cabe numa definição.
A canção tenta descrever do primeiro verso ao último. E termina devolvendo a palavra a quem nunca precisou ser descrito.